Quem nos tornamos diante das memórias que herdamos? Trauma e identidades negras em As Criadas
Texto meu que li durante a mediação da mesa de debate do filme As Criadas, dirigido por Carol Rodrigues, no Cinesystem Botafogo.
O filme As Criadas me leva diretamente a uma citação de Josefina Ludmer: “O tempo é também um problema cultural pela quantidade de passado, de memória e de história que existe no presente”. Esse acúmulo de vivências, experiências históricas e da própria construção do Brasil nos apresenta um problema cultural estruturado no esqueleto do tempo. Estamos falando de um trauma que atravessa séculos e que nos obriga, continuamente, a acreditar e disputar a possibilidade de um futuro mais justo.
Em As Criadas, a primeira imagem é a pintura Redenção de Cam, de Modesto Brocos, pegando fogo. É justamente o quadro que materializa o projeto de embranquecimento do Brasil. E desde aí o filme vai falar sobre a experiência de ser uma pessoa negra no Brasil, apresentando não só nas protagonistas mas nas outras personagens negras uma pluralidade de diversas individualidades do “eu negro”
E essas diversas mulheres que habitam nessas duas mulheres, tentam criar um vínculo familiar dentro da estrutura mais opressora possível. A casa grande. E chegamos a ela, a casa, e encontramos aquilo que hoje poderia ser entendido como a Casa Grande contemporânea, a casa do capital é construída no arquétipo da casa colonial. Não apenas porque, majoritariamente, famílias brancas habitam esse tipo de residência, mas porque sua própria estrutura arquitetônica ainda carrega os lucros dessa herança.
A casa-labirinto surge, então, como símbolo de conquista, poder e mobilidade social. Mas, quando corpos negros passam a habitar esse espaço, ele deixa de ser estável. Torna-se um território atravessado, infiltrado, questionado. A força simbólica daquela arquitetura é tão grande que ela parece capaz de impedir que duas mulheres negras se reconheçam plenamente uma na outra. E há algo de muito bonito e perturbador nessa constatação.
A forma como chegamos ao final do filme reforça essa leitura. Na imagem derradeira, as duas destroem a casa a marteladas. E não destroem apenas a construção física, mas também aquilo que ela representa: uma arquitetura afetiva e social que ajudou a organizar os traumas raciais deste país. Quando tudo termina, elas se olham. Estão cansadas. E talvez seja justamente nesse cansaço compartilhado que, pela primeira vez, consigam se enxergar.

